17 de fev de 2012

Os Papas do Séc. VII – O Lombo Exposto aos Lombardos

O século VII foi muito estranho.  Estranho porque depois de São Gregório temos um Sabiniano no trono de São Pedro.  Estranho porque os Lombardos tornaram a vida das pessoas na Itália tão insuportável que já tinha cristão doido por uma catacumba ou para voltar para os tempos de São Calixto.  Mas vamos deixar que os papas contem a história desse tempo.
 
papa_sabinianoSabiniano - É impossível achar qualquer adjetivo elogioso para Sabiniano.  Foi um fracasso como sucessor do magnífico São Gregório.  E como se isso não bastasse, era um covarde de primeira.  Ao ver os incêndios e o caos espalhado pela cidade santa, em vez de se juntar e apascentar o rebanho do Cristo, se escondeu dentro da Sé e ordenou que as luzes das igrejas sempre deveriam ficar acessas.

Sabiniano cortou as refeições que o Papa Gregório servia aos pobres.  Pior, em vez de dar, passou a cobrar, ou seja, transformou a Casa de Deus numa espécie de restaurante do Garotinho (aquele governador do Rio que fazia restaurantes em que a refeição era R$1,00). Resultado, seu cortejo fúnebre teve que ser desviado de Roma para fora da cidade sob a possibilidade de que o povo não fosse muito “simpático” a este senhor.

Felizmente, foi papa pouco tempo, de 604 a 606.  Foi tão detestado que seu corpo foi sepultado em segredo na Basílica de São Pedro.

Bonifácio III – Só foi eleito um ano após a morte de Sabiniano.  Ao contrário de seu antecessor, fez coisas importantes para a Igreja.  A principal delas foi a proibição, passível de excomunhão, de qualquer discussão a respeito da sucessão do Papa.  Essa norma se mantém até hoje. Nos tempos de Bonifácio III eram três dias para a eleição do novo Papa, hoje são nove.  Cassou a pretensão de João IV (patriarca oriental que queria controlar a Igreja) e conseguiu junto ao Imperador Focas que somente o Bispo de Roma poderia ser chamado de ecumênico. Papa de 19 de fevereiro a 12 de novembro de 607.

São Bonifácio IV - Demorou também a ocupar o seu lugar depois de eleito, um pouco menos que seu antecessor, dez meses.  Curiosidade: São Bonifácio IV é o criador do Halloween (que não era a festa pagã que vemos hoje, óbvio).  Explicando: ele converteu o Panteão de Roma (templo devotado aos deuses gregos) em igreja dedicada à Maria e a todos os santos, para salvá-lo da destruição.  Em homenagem a isso, instituiu o dia de todos os santos como sendo 1º de novembro.

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Panteão de Roma: monumento preservado graças a Bonifácio IV

Bonifácio IV foi um dos mais diletos alunos de São Gregório Magno e, como este, era um monge beneditino.  Converteu sua casa em mosteiro e protegeu o monaquismo.  Durante o sínodo que promoveu em 610 brotaram as sementes plantadas por Santo Agostinho da Cantuária e São Gregório, com a presença dos primeiros bispos de Londres que foram a Roma para aprender a regularização da vida monástica. Dedicou-se aos pobres assim como o seu mestre.  Papa de 608 a 615.

São Deodato (Adeodato I) – Pouco se registrou dessa época.  Sabe-se que São Deodato reduziu as prebendas, um benefício pecuniário ao qual os monges faziam jus desde São Gregório. Instituiu o selo papal no intuito de evitar as falsificações e a quebra de sigilo das cartas episcopais.  Depois de São Gregório, foi o primeiro Papa a ordenar sacerdotes.  Em seu leito de morte, legou a seus sacerdotes um ano de salário – foi o primeiro papa a fazê-lo.  Papa de 615 a 618.
  
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Bonifácio V – Eleito pela facção clerical diocesana, demorou um ano para ter sua confirmação aceita pelo Imperador.  Durante seu papado, a Itália estava sendo assolada pela disputa pelo trono, e o exarca – título instituído pelo Imperador do Oriente e que significa que o nomeado era o seu representante – estava lutando em várias frentes.  Foi Bonifácio V que instituiu a imunidade de asilo nas Igrejas, o que na prática as transformou em embaixadas.  De certa forma, foi o Papa Bonifácio V que inventou a instituição jurídica do Asilo Político.

No combate à simonia (venda de coisas sagradas, como promessas de bens espirituais, relíquias ou bênçãos), decretou que somente os padres poderiam fazer a transferência de relíquias de santos.  Demonstrou interesse pela Inglaterra e entregou o pálio a Justo quando esse se tornou Arcebispo de Canterbury, em 624.

Roma foi assolada pela peste e pela fome e Bonifácio V cuidou dos doentes e dos leprosos com carinho e dedicação. Sua fortuna pessoal foi distribuída aos pobres e aos seus sacerdotes deixou um legado generoso.  Papa de 619 a 625.

Honório I – Foi um Papa ocupado com certeza.  Durante seu pontificado, temos duras disputas teológicas contra os monotelistas – heresia que afirmava que Jesus teria apenas uma vontade,  a divina, negando que nEle existisse a vontade humana.  Honório ficou em cima do muro.  Não os aprovou, mas também não os condenou.  Sérgio I, patriarca de Constantinopla, propôs uma fórmula a Honório em que a segunda pessoa da Trindade deveria ser o verbo de Deus, sujeito de toda operação humana e divina.

Honório I destacou-se no apoio dado à jovem Igreja da Inglaterra, que começava a botar a cabeça para fora da lama na qual havia se metido, entregando o pálio aos jovens arcebispos de Canterbury e de York.  O Rei Edwin da Nortúmbria – parte da Inglaterra – recebeu as congratulações do Papa na ocasião do seu batismo.  Homório reforçou a educação do clero fundando escolas, já que muitos padres eram ignorantes.  Quando a coisa ficou feia e sequer haviam pessoas aptas para exercer determinadas funções temporais, coube ao Papa assumir a frente destas. Papa de 625 a 638.

papa_severinoSeverino – Não, ele não era porteiro, nem sanfoneiro de banda de forró universitário. Depois da morte de Honório, foi eleito Papa Severino, que condenou a fórmula monotelista e caiu em desgraça diante do Imperador Eráclio, que a apoiava e por vingança e só aceitou sua eleição pouco menos de dois meses antes de sua morte.  Severino deve ter morrido de desgosto.

Para completar, Eráclio mandou saquear as igrejas de Roma, passando por cima das determinações do Papa Bonifácio V e reduzindo a antiga capital a um 9,8 na escala Haiti de miséria.  Severino foi papa de 28 de maio a 2 de agosto de 640.

João IV - João, assim como Severino condenou os monotelistas e, como seu antecessor, ficou com o Imperador furioso fungando no seu cangote.  Como Dioclesiano João IV era croata, uma pequena justiça poética. Enquanto seu famoso conterrâneo Imperador gastou os tubos para prender e arrebentar João também torrou uma grana preta, mas para libertar seus compatriotas e levar auxílio espiritual a combalida Croácia assolada pelos invasores eslavos.  Papa  de 640 a 642.

Teodoro I - Botou de vez as cartas na mesa. Mandou o monotelismo às favas e desistiu de ser educado com os hereges.  O monotelismo era sustentado por um decreto imperial chamado Ectese, sobre o qual o Papa escreve ao Imperador Cosntantino II questionando o porquê daquela porcaria ainda estar em vigor; aproveitou a vênia exigindo que o patriarca, Paulo II,  abjurasse o malfadado decreto.

Teodoro era grego e nascido em Jerusalém e adicionou o título de soberano ao de pontífice às designações do Bispo de Roma.  Durante seu pontificado condenou dois patriarcas, além do já mencionado Paulo II, Piro I. Com tanta intriga palaciana girando ao seu redor, não é de se estranhar que se suspeite ainda hoje que o Papa tenha sido envenenado.  Papa de 642 a 649.

papa_sao_martinho_ISão Martinho I – São Martinho resolveu chutar o balde.  Foi o primeiro papa a ser consagrado sem esperar a aprovação do Imperador, o que deixou Constantino II bem zangadinho.  Para enterrar de vez os monotelistas, convocou um concílio e excomungou Paulo de Tessalônica, bispo da palestina, centro espiritual do monotelismo.

As consequências para São Martinho desencadeadas por Constantino II foram severas.  Em metade de seu papado, ou ele estava exilado ou em cana.  Constantino nunca o considerou Papa e assim nunca o julgou como tal, apenas como um diácono rebelde.  Prenderam o Papa numa pocilga, em condições terríveis.  Querendo se livrar dele o mais rápido possível, Constantino II o enviou à Criméia (um lugar longe pra $#%#%#alho) numa cidade chamada Quersoneso.  Procurando no mapa, jogaram o Papa para a Ucrânia! São Martinho encerra a série dos Papas mártires, foi sepultado ali mesmo na terra que viria a ser ocupada pelos vikings. Papa de 649 a 654.

São Eugênio I - Nessa era de confusões malucas, São Eugênio foi o responsável pelo reinicio de um processo de paz com o Império do Oriente.  Não se tinha notícias do Papa Martinho e a Sé resolveu levar ao trono vago São Eugênio I.  Não foi uma tramóia, ao que tudo indica, mas sim um desejo de não se manter refém da vontade do Imperador.  Crê-se com isso que durante um curto período haveriam dois papas legítimos no mundo, muito embora um ainda tivesse seu paradeiro desconhecido e não se sabia o que Constantino andara fazendo com ele.

Ninguém pode dizer que São Eugênio não tentou.  Mandou uma comitiva a Constantinopla para fazer as pazes.  Propôs até uma fórmula conciliatória para os monotelistas.  O clero ocidental claro que não aceitou e Eugênio voltou atrás, o que deixou o Imperador zangadinho de novo.  Ele tentou botar as mãos no Papa, mas duas coisas o impediram.  A derrota para os árabes em 655 e a morte de São Eugênio em 657.  Papa de 654 a 657.

vitalian_popeSão Vitalino - Terminou o processo iniciado por São Eugênio e foi conciliatório no que diz respeito aos monotelistas.  Foi um período de relativa paz.  Foi também o papa que introduziu o órgão nas Igrejas, sua grande realização, entretanto, foi a conversão dos Lombardos ao catolicismo.

Os Lombardos eram originalmente uma tribo germânica (eram parte do povo conhecido como suevos) de origem escandinava que fora acomodada na Panônia por Justiniano em meados de 546.  Teodorico, vulgo o chato, foi seu líder mais famoso.  E tradicionalmente os Lombardos eram arianos, vem daí a confusão e os saques permanentes a Roma nos século VI e VII.  Foi só a partir de sua conversão à verdadeira fé que Itália e Roma puderam desfrutar de alguma paz. Papa de 657 a 672.

Adeodato II - Assim como São Gregório, era monge beneditino, e como monge beneditino viveu mesmo quando eleito papa.  Tinha 52 quando foi eleito, o que para alta Idade Média é alguém muito idoso.  É marcante no seu pontificado o início das pertubações vindas do lado dos árabes.  Pertubações essas que vocês vêem na TV diariamente até os dias de hoje.
A rapaziada de Maomé estava em plena Jihad, lascando a mamona em cima de quem não quisesse se ajoelhar para Meca ou não achasse o máximo ser escravo de um sultão; isso é islamismo.  Adeodato teve que aturar a galera de turbante invadindo o sul da Itália e escravizando metade da população.  No campo social, dedicou-se aos pobres e a caridade.  Papa de 672 a 676.

Dono - Roma vivia por esta época com a sombra de uma separação chamada Cisma de Ravena.  Ravena pra quem não sabe foi a última capital do Império Romano do Ocidente e sede do Governo do Imperador quando a Itália foi reduzida a colônia do Oriente.

Ocorre que havia muitos que queriam transferir a Capital espiritual de Roma para Ravena. Foi Dono, com a intervenção de Constantino IV, Imperador do Oriente que acabou com essa brincadeira.  Sob o pontificado de Dono, Cambridge foi fundada – por católicos, claro. Só pra variar: malditos cristãos!

Uma peculiaridade de seu papado foi a descoberta de um ninho de hereges nestorianos em um mosteiro em Roma.  Dono os baniu e substituiu os hereges por monges ortodoxos.  Papa de 676 a 678.

sao_agataoSão Agatão – Foi durante seu pontificado que enfim o Império Bizantino retirou o seu apoio ao monotelismo.  São Agatão também era monge e foi o criador do juramento papal, que até os dias de hoje é prestado por todos os papas quando recebem o báculo.

Dos Papas santificados, é um dos poucos casos que é venerado tanto por católicos como por ortodoxos.  Mandou, ao Concílio Ecumênico de Constantinopla, 680 representantes do Ocidente, mas faleceu antes de poder assinar as atas das resoluções daquele Concílio.  Muito amado pelo povo e dedicado à causa dos mais humildes, recebeu os títulos de taumaturgo (médico) e maravilhoso trabalhador.  A ele são atribuídos inúmeros milagres tanto durante quanto após sua vida. Papa de 678 a 681.

São Leão II – Terminou o trabalho de São Agatão e aprovou os atos do Terceiro Concílio de Constantinopla.  Através destes, o monotelismo foi definitivamente banido, em consequência, o Papa Honório I foi anatematizado (excomungado). Foi São Leão que introduziu o uso da água-benta nos ritos litúrgicos.  Um édito do Imperador estabeleceu em definitivo a subordinação da Igreja de Ravena a Sé Romana.  Papa de 682 a 683.

São Bento II – Bento II terminou o que lá atrás São Martinho começara.  Mas desta vez ele conseguiu por um erro fortuito e por diplomacia.  Acontece que por conta da preguiça e da má vontade do exarca de Ravena para com Sua Santidade, Bento II levou quase um ano para ser formalmente consagrado Papa.  Por conta disso e das suas boas relações com o Imperador, o Papa conseguiu que a partir de seu sucessor o Papa não precisasse mais nem da sanção Papal nem da aprovação do exarca. O papado dava seus primeiros passos na direção do que hoje chamamos Estado do Vaticano.  Fora isso, grande parte de sua energia foi gasta na restauração das Igrejas de Roma.  Papa de 684 a 685.

João V – Foi o primeiro Papa consagrado sem a tutela da legitimação imperial.  Seu papado foi curto.  João, Sírio nascido na Antióquia, era um homem enfermiço.  Era um bom coração decerto, mas muito pouco pode fazer em virtude de sua debilidade.  Foi severo com a insubordinação suspendendo bispos que ordenavam bispos sem o conhecimento da Santa Sé.  Foi generoso com os mosteiros caridosos de Roma e com seus sacristãos. Papa de 684 a 685.

Cônon – Trapalhão é o melhor adjetivo para definir Cônon.  Era já idoso quando foi eleito Papa e sua eleição é uma pagina obscura.  Não era firme, nem decidido nas suas ações.  Tanto é, que a anarquia reinou durante seu papado.  Não era um canalha como Vigílio, era apenas fraco e atrapalhado.  Ajudou vários mosteiros entre outras obras de caridade.  Papa de 686 a 687.

São Sérgio I – Por conta das bobagens e da falta de pulso de Cônon, Sérgio I recebeu um papado em frangalhos, com a sombra de dois antipapas rondando.  Resistiu aos esforços do Imperador ao retorno do status quo anterior em que era este que homologava a eleição do Papa.  Entre as várias brigas que puxou com o Imperador, destaque pela defesa do celibado que Justiniano II queria abolir.  Introduziu o agnus dei na missa e nas procissões. Por fim, foi o responsável pela transferência dos restos mortais de Leão I de seu modesto túmulo para um pomposo na Basílica de São Pedro.  Papa de 867 a 701.

No próximo encontro: Os Papas do Século VIII – Carlos Magno está chegando, como não tinha meias limpas, mandou trazer doze pares de França( Ô piada velha!).

Por Paulo Ricardo em 02/12/2011

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