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17 de jan. de 2012

Vocação para Margem ou “Non Serviam”


Alguns críticos do teísmo, como o falecido Christopher Hitchens, dizem que a religião é a causa dos males  do mundo e a maior divulgadora de doutrinas estranhas e indefensáveis. Para eles, por exemplo, o respeito absoluto à liberdade humana por parte de Deus, inclusive depois da morte, é absurdo (o inferno); o esforço humano pelo equilíbrio na obtenção dos prazeres é uma afronta (ascese). No fundo desta postura está a premissa: o que não entendo é um absurdo. Como a dor não tem sentido para os ateus, o inferno como lugar de dor eterna é algo incompreensível; do mesmo modo, como o prazer não pode se submeter a regras, a ascese humana para ordenar as paixões é uma violência, a seus olhos. Para eles, a religião, e o cristianismo em particular, é castradora.  No entanto, é justamente o contrário. O pensamento de matiz religioso e especialmente o espírito cristão católico é mais inclusivo e abrangente que o ateísmo puro e simples.  O cristão católico não ignora nada: o mundo não é um lugar de onde se deva fugir, mas um campo de batalha que tem o leigo como infantaria entusiasmada; a dor não é uma inimiga, como pensam os ateus, mas uma aliada, se bem entendida; nem a morte, mal irremediável para os ateus – Hitchens que o diga! – tem a palavra final para os cristãos. Enfim, entre os ateus e os cristãos, quem vive castrado, sem poder aproveitar tudo (tudo mesmo!) que nosso mundo oferece são os ateus, pois eles só aceitam o prazer e não a dor; a vida e não a morte; a força, nunca a fraqueza. Nós outros, pelo contrário, assumimos tudo o que o mundo tem para nos dar.