16 de mar de 2012

Papas do Séc. X (Parte I) – Os Piores da História


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E então povo católico,

Chegamos ao Século X.  O que vocês vão ler a seguir talvez os escandalize, mas não devemos perder de vista que a Igreja é formada por homens. Lembrem-se de que até mesmo no seu núcleo original, formado por doze apóstolos escolhidos a dedo pelo próprio Cristo, havia Judas Iscariotes. Talvez esse fosse um sinal de que os cristãos nunca ficariam isentos da presença de traidores, mas que isso jamais invalidaria o fato de que a Igreja é, e sempre será, guiada e sustentada pelo Deus Vivo.

Então, antes que algum crente ou anticatólico se anime, vai um alerta: nenhum pecado pessoal dos Papas causa qualquer arranhão no dogma da infalibidade papal. Seja o papa santo ou pecador, ele é sempre infalível quando trata de questões de fé e moral, ensinando a toda a Igreja (ex-catedra).
O SAECULUM OBSCURUM, OU PORNOCRACIA
Machiavel, entre os muitos estragos que sua pseudo-filosofia espalhou, legou ao mundo a imagem de Rodrigo Bórgia (Alexandre VI) como Papa mundano e amoral.  Numa coisa Machiavel estava certo: Rodrigo não era flor que se cheire.  No nosso imaginário ele é talvez o pior papa da história, mas há papas no século X – o Saeculum Obscurum – que fazem essa criatura parecer a Madre Teresa de Calcutá.

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Cardeal César Baronius

Considerado o período mais baixo da história da nossa amada Igreja, o Saeculum Obscurum recebeu esse nome do historiador e cardeal César Baronius.  Utilizando-se dos Annales Eclesiasti de Liutpranto de Cremona, Baronius trouxe à luz muitos acontecimentos tenebrosos desse período, para mostrar ao mundo que a Santa Igreja nada tinha a esconder.  A verdade seria contada, ainda que isso denotasse vergonha pelos atos de alguns dos homens que, mesmo indignamente, ocuparam o trono de Pedro.

Notem que interessante: este esforço de transparência aconteceu no século XVI!

Os demais historiadores, por sua vez, chamaram o período de um nome bem menos elogioso: pornocracia.  Foram cerca de 59 anos de 903 a 963, somente comparáveis à decadência e à devassidão perpetradas por Nero, Tibério, Calígula e Helioboros, sem exageros.

A origem de todo esse mal recai apenas sobre uma família de nobres romanos, mais precisamente sobre certas mulheres dessa família: os Teofilactos.  O destino de Roma esteve por algum tempo ligado aos caprichos daquelas “senhoras”, em especial Teodózia e suas filhas Marózia e Teodózia, a jovem.  Não eram prostitutas na acepção da palavra, era sim boas filhas da p@$&%#ta (a palavra pornocracia é derivada do alemão e não do grego, como pode parecer, e significa “governo das prostitutas”).

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O cadáver do Papa Formoso sendo julgado pelo infame Papa Estêvão VI.


O período que vai de 880 a 1046 registrou o maior número de papas da história: 48, que dá uma média de um ano e meio para cada papa.  Uma opinião pessoal minha é que esse foi o resultado da ira divina: Papai do Céu zangou-se muito com o nefasto “Sínodo do Cadáver” (quando o corpo do Papa Formoso foi desenterrado e julgado pelo infame Papa Estêvão VI. Clique aqui para saber mais).

Antes de mais nada, os dois primeiros papas que veremos não fazem parte da lista de escroques: foram apenas vítimas da balbúrdia que já vinha sendo tramada pelos Teofilacto. Tecidas as considerações, vamos em frente.

Bento IV – Durante o seu papado, os partidários do vilipendiado papa Formoso e seus opositores provocaram uma guerra civil.

Bento IV era um bom homem, que pouco pôde fazer diante da devassidão que surgia no horizonte.  Restou a ele convocar um sínodo para tentar arrumar minimamente as coisas.  Culto e gentil, foi vítima das intrigas e da mesquinharia demoníaca dos Teofilacto.  Teve ainda que enfrentar os húngaros e os sarracenos que batiam às portas de Roma.

Com a morte de Lambert, o jovem Rei, a Itália mergulhou no caos e os Estados Pontifícios perderam seu protetor, Berengário. Este podia suceder o rei, mas foi derrotado pelos magiares e teve suas pretensões contestadas por Luís II, O Cego, de Provença.  Bento cometeu o erro de coroar Luís.  Logo em seguida, recuperando suas tropas, Berengário depôs Luís e o expulsou da Itália.

A generosidade desse papa, sua bondade e seu zelo pelo patrimônio público são lembranças de que ainda havia no mundo homens dignos.  Suspeita-se que tenha sido envenenado pelos partidários de Berengário.  Papa de 900 a 903.
  
papa_leao_vLeão V - Leão V foi, antes de mais nada, uma vítima, vítima de um mundo ao qual ele não pertencia, vítima da maldade humana, vítima de seres imundos que inundaram Roma e a Casa de Deus de imundície.  Era apenas um sacerdote de uma cidadezinha a 35 km de Roma (Príapo), cuja boa reputação repercutia naquela região.  Foi uma ovelha jogada em meio aos lobos. Seu pontificado durou apenas dois meses.

O ambicioso sacerdote geral da igreja de São Dâmaso, Cristóvão, promoveu uma revolução palaciana com o intuito de assumir o trono.  O Papa Leão V foi jogado às masmorras
 Cristóvão assumiu o papado, mas nem esquentou lugar, pois foi logo deposto pelo infame Sérgio.  Ambos, Leão V e Cristóvão, foram torturados por meses antes de serem assassinados na prisão.

Somente registros extra-oficiais sobraram desse período (presume-se que queriam apagar Leão V da existência).
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Pois então, meus amigos, teremos a seguir o início do Saeculum Obscurum, cujo primeiro papa foi…



lord_voldermortSérgio III – Esse demônio é forte candidato a pior papa da história, é o mesmo Sérgio que os inimigos do papa Formoso haviam desejado fazer sucessor de Teodoro II, e foi chutado pra fora pelo Rei Lambert.  Assassino e covarde, manchou de sangue o trono do Príncipe dos Apóstolos.
Sérgio era conde de Tusculum e marchou contra Cristóvão para se vingar da humilhação que sofrera nas mãos dos partidários do papa Formoso. Os tusculanos possuíam ligações sanguíneas com os Teofilacto, a ambição de Cristóvão abriu espaço para a monstruosidade oportunista de Sérgio.  Uma das suas primeiras atitudes foi convocar um sínodo para confirmar… o Sínodo do Cadáver. Ganhou um 10.000 na escala Alexandre VI de patifaria.

Sérgio governou Roma com mãos de ferro graças ao apoio dos Teofilacto, que agregaram ao seu redor a maioria da nobreza, bem como através do favorecimento do funcionalismo público.  Governou pelo medo e pela dor.

Alguns defendem suas obras, como a reconstrução da Basílica de Latrão que havia sido parcialmente destruída por um terremoto que aconteceu… durante o Sínodo do Cadáver.  Depois dizem que Deus não avisa.

Curiosidade: o poltrão que estamos tratando foi ordenado diácono pelo nobre papa Formoso e, como as ordenações deste foram injustamente canceladas, Sérgio se fez ordenar novamente pelo papa Estevão VI (tão canalha quanto ele).  Parece uma idiotice, mas ele queria evitar que se invocasse contra ele o cânon 15 do Concílio de Nicéia… O pulha planejava há tempos ser papa!


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Pra piorar a coisa, Sérgio levou para sua cama a nefasta Marózia Teofilacto (o velho safado gostava de uma Lolita… ela tinha 15 anos).

Certo da sua impunidade e sequioso por escrever seu nome na história, Sérgio quis apagar os nomes de João IX, Bento IV e Leão V, datando o início de seu papado em 897, como sucessor de Teodoro II.

Mas parece que o ódio ao papa Formoso era o mote de sua vida.  Reafirmando as anulações do Sínodo do Cadáver, Sérgio III instaurou o caos na Igreja, uma vez que Formoso ordenara muitos padres e bispos que se viam agora “desordenados” por obra e graça de um louco.  Para consertar a grande “M” que estava fazendo, Sérgio determinou que todas as ordenações fossem refeitas… sem comentários.

Contribuindo ainda mais para o afastamento entre Ocidente e Oriente, Sérgio III aprontou das suas também com Constantinopla.  Quando o imperador Leão VI, O Sábio (tava mais pra sabichão), foi proibido de casar-se pela quarta vez pelo patriarca local, eis que vem Sérgio todo pimpão abençoar a união do dito.  Resultado: cheio de si, o imperador chutou o patriarca, que não ficou nada feliz, bem como o povo grego de Constantinopla.

E a gracinha não acabou por aí… Os Teofilactos ainda fizeram Teodózia e Marózia Senadoras de Roma.  Não por acaso, muitos fiéis consideravam que o terremoto ocorrido durante o Sínodo do Cadáver fora um sinal de descontentamento divino.  Hoje, muitos de nós católicos, quando chegamos a ter conhecimento da história nojenta desse papa, nos perguntamos: por que o descontentamento divino não fez chover paus e pedras na cabeça de Sérgio III?  Papa de 904 a 911.

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Devido à extensão e a complexidade do tema, daremos um tratamento especial ao século X, utilizando 4 posts.  Acompanhem!

Por Paulo Ricardo em 09/02/2012
fonte: O Catequista

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