9 de mar de 2012

Os Papas do Séc. IX – Na Mira de Intrigas e Assassinatos

Este é o segundo e último post sobre os Papas do século IX.  Para quem curte tramas com muitas tramóias, suspense e sangue, este post é um prato cheio.

Adriano_II
Adriano II - Adriano II é o mesmo que se recusou o trono quando Bento III foi eleito (post anterior).  Agora vai! Acontece que era ele para ser o Papa no lugar de São Nicolau, quando escafedeu-se pela segunda vez.  Na terceira, não teve jeito.

Dá pra ver que Adriano II era uma figura, no mínimo, curiosa.  Ele teve muitos problemas durante seu papado, tanto políticos quanto pessoais.  Logo de cara, temos o ataque do duque de Spoleto, que não entrou em Roma para instalar franquias de macarronada, e sim saquear e passar o povo no fio da  espada.  Adriano II era casado antes de sua ordenação e, como desgraça pouca é bobagem, sua filha e sua esposa foram violentadas e assassinadas.

Não foram bons momentos não acham?  Ainda havia em Roma a sombra do queridinho dos imperiais, Anastácio, que foi tolerado por São Nicolau, mas acabou sendo demitido e excomungado por Adriano II.  Devido à pressão dos imperiais, acabou Adriano obrigado a voltar atrás, mas nomeou Anastácio para um cargo menor, a fim de anular sua influência de bastidores.

Seu último ato registrado foi a recoroação de Luís II na Basílica de São Pedro.  Esse pobre Papa sofredor ocupou o trono de Pedro entre 867 a 872.

João VIII - O Papa João VIII entrou tristemente para a história por dois motivos, alheios a sua vontade.  Primeiro, sua imagem ficou associada à da fictícia “Papisa Joana, que já teve dois posts aqui nO Catequista (recapitulando: pela  sua iconografia, percebe-se que João VIII era, digamos, meio afeminado).  Segundo, foi o primeiro papa a ser comprovadamente assassinado, ou por seus assistentes ou parentes, depois arrebentado a pauladas. Terrível!

GiovanniVIII 

João VIII foi, para além disso, um bom Papa.  Politicamente, coroou o Imperador Carlos, O Calvo, Rei dos Francos Ocidentais.  Quando esse veio a falecer, transferiu o apoio e a coroa para a banda oriental, fazendo imperador o outro Carlos, O Gordo.  A atitude de João se deveu a sua necessidade de defender Roma do pessoal do charutinho de repolho.

Os muçulmanos ainda estavam ali, naquela de lobo mau, soprando e bufando.  Na época do “Careca”, o Papa estava conseguindo rechaçá-los; mas o Gordão tava muito ocupado dando uma de Obelix.  O papa perdeu e, para não ter uma mesquita ao lado da Basílica de São Pedro, teve que morrer numa grana violentíssima para que os sarracenos investissem em lojinhas no Saara e na 25 de Março. Papa de 872 a 882.

Marino I - Foi o primeiro papa a ser eleito sem que fosse o bispo de Roma; era Bispo de Caere. Carlos III reconheceu seu pontificado.  Manteve boas relações com os governantes ocidentais. Quando Alfredo, O Grande, Rei dos bretões, solicitou que o Papa isentasse de impostos o bairro inglês de Roma, obteve seu pedido.

Não se tem certeza, mas Marino pode ter tido o mesmo destino de João VIII e ter sido envenenado, em virtude na sua interferência nas querelas políticas da nobreza italiana.  Papa de 882 a 884.

São Adriano III - O que pouco se comenta sobre Adriano III é sua sagração como Papa.  É uma página obscura da história.  Fora isso, ao que parece, virou moda assassinar Papas nessa época.  No caso de São Adriano, os caras já estavam ficando descarados, trocando das sutilezas do envenenamento pela proverbial facada nas costas.

Coerente, esse papa confirmou todos os atos de seus antecessores.  Um dos poucos atos registrados de seu curto papado: mandou cegar um funcionário que teria sido um dos responsáveis pelo assassinato de João VIII e havia sido exilado, mas que  Marino I permitiu que retornasse.

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Tumba de S. Adriano III, em Modena

Carlos III solicitou ao Papa que participasse da Dieta de Worms.  Ao que parece, o que Adriano III não sabia é que Carlos III pretendia que o papa confirmasse seu filho ilegítimo como herdeiro do trono, sendo esse o estopim para seu assassinato.

É provável que não tenha sido permitido o exame do corpo, sendo a causa mortis oficial o popular “mal súbito”.  Faleceu em Modena e ainda hoje seu túmulo é local de adoração sendo atribuído a ele muitos milagres.  Credita-se a Adriano III uma biografia de Carlos Magno em 4 volumes.  Papa de 884 a 885.

Estêvão V – Já virou costume assassinar papas.  Carlos III, O Balão, não tinha herdeiros e a sucessão virou uma zona.  Um dos postulantes era Guido III que, tempos antes, havia sido destituído por Carlos de suas posses e seus títulos.

Guido III era um tipo cruel e manipulador, não valia nada e era sequioso de poder. Era suspeito de mandar assassinar São Adriano III (chama o CSI Miami!) e estava fazendo e acontecendo na Itália.

As guerras de Guido devastam a Itália.  Apavorado, o papa coroa Guido como Imperador.  E o pau cantou na casa de Noca…  O trato era Guido garantir a autonomia dos Estado Pontifícios.  Acaba aqui o Império Romano do Ocidente: o título de imperador passou a ser um símbolo do favor do Papa. Emergiram desde a França, O Sacro Império Romano-Germânico um punhado de estados independentes que futuramente irão compor o que chamamos de Itália.

Estêvão foi deposto, encarcerado e estrangulado na prisão.  Papa de 885 a 891.

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Formoso - Foi eleito papa na fina flor de seus 76 anos, consagrado em 891.  Fortaleceu e promoveu o cristianismo na Inglaterra e no Norte da Alemanha.  Manteve relações amigáveis com Constantinopla.  Não era o preferido de Guido e, para se garantir contra este, buscou o apoio de Astolfo, o Rei dos francos.

Guido morre em 894 e Formoso coroa Astolfo.  Formoso foi o Papa que converteu os búlgaros ao catolicismo. Papa de 891 a 896.

Bonifácio VI - Esse era pilantra.  Tão pilantra que ficou no trono de Roma somente 15 dias.  Era representante dos opositores do Papa Formoso.  Caso único, foi eleito depois de ter sido despojado duas vezes do hábito por conduta imoral (sentiram o drama?).  Um sínodo reunido por João IX, em 898, deplorou sua eleição.  Papa em 896.

Estevão VI - Infâmia, teu nome é Estevão VI.  Escoladão em sacanagens, esse senhor era PHD na “Escola Vigílio”.  Vamos ver a seguinte situação:  Lamberto II era o filho bobo alegre de Guido III e de uma senhora jararaca chamada Ageltrudes (essa era jararaca até no nome).  A mocréia conseguiu com que Estevão VI coroasse como Imperador seu filho paspalhão, desfazendo a obra de seu antecessor, Formoso.

Da situação esdrúxula narrada acima temos a convocação do tristemente célebre e absurdamente tosco “sínodo do cadáver“, presidido por Estevão VI.  Diante da presença dos partidários do recém-empossado “imperador” e da imperatriz-mãe, foi trazido o cadáver do Papa Formoso, colocado sentado diante da assembléia, acusado de um cem números de crimes.  Pior que isso, solicitaram que Formoso (sim, o cadáver!) respondesse às acusações.  Como o falecido preferiu guardar silêncio, foi despido das insígnias papais, teve os dedos da mão direita cortados e foi atirado ao Tibre.

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O cadáver do Papa Formoso sendo julgado por Estêvão VI. Pintura de Jean-Paul Laurens (1870)


Reza a lenda que seu cadáver flutuou até a diocese do Porto, de onde ele veio e onde era amado pelo povo, que o sepultou provisoriamente na capela de Santa Inês, até o momento em que ele pôde voltar para casa, no Vaticano. Estêvão pagou caro por isso.  Traído pelos seus amiguinhos, foi parar no xilindró, onde foi estrangulado.  Papa de 896 a 897.

Romano - Depois de tantos assassinados, conflitos e intrigas, tava difícil achar alguém que quisesse ser Papa, por incrível que pareça.  Recaiu sobre Romano essa responsabilidade.

Romano é um grande mistério: não sabemos quando nasceu e sequer quando morreu.  Ele é intrigante, pois também foi considerado virtuoso, e homens virtuosos naquele contexto eram raros.  Diz-se que virou monge.  Mas em que circunstâncias? Por vontade própria ou foi afastado por seus opositores? Era querido pelo povo.  Teria sido envenenado? Mas quando? Poderiam escrever-se muitos e muitos romances para preencher as lacunas da vida desse Papa.  Oficialmente, esteve no trono de Pedro durante 4 meses, em 897.

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O refresco "favorito" dos papas do século IX


Teodoro II - Papa durante 20 dias.  Pra variar, suspeita-se que tenha sido envenenado.
A despeito do curto papado, Teodoro convocou um Concílio para invalidar a infâmia perpetrada pelo nefasto “sínodo do cadáver”.  Reabilitou o Papa Formoso, reconhecendo a validade de suas ordenações e atos pontifícios, resgatou o seu corpo vilipendiado da Capela de Santa Inês e sepultou-o dignamente no local de origem.

Teodoro era muito querido pelo povão e tido como forte candidato a santo (desde São Adriano III, não temos papas canonizados).  O motivo para se crer em sue envenenamento é o fato de sua luta contra a participação de partidos políticos em assuntos eclesiásticos. Papa em dezembro de 897.

João IX – Último Papa desde Século IX.  Ao nobre João IX coube o esforço de conter uma tradição que estava se tornando vergonhosamente corriqueira: o roubo da casa do Papa e dos Príncipes da Igreja em geral após sua morte.

Primeiramente, o bispo de Caere, Sérgio, partidário da turminha do sínodo do cadáver, queria ser o Bispo de Roma; mas o Espírito Santo intercedeu e não o permitiu.  Apelando para o Rei da Itália, Lambert, João chutou o r#$#%abo de Sérgio do palácio de Latrão e João, abade benedito de origem, assumiu o trono.  Terminou o trabalho iniciado por Romano e Teodoro II para reabilitar a memória do Papa Formoso.  Reuniu novo sínodo em Roma, onde foram julgados participantes do Sínodo do Cadáver, sendo alguns absolvidos e outros condenados, entre estes o chutado Sérgio (guardem esse nome, ele vai voltar).  Papa de 898 a 900.

*****

Terminado esse século conturbado, violento em seu final e triste, na próxima teremos a conjuntura da Igreja ao se preparar para o novo milênio.  Vem aí o século X.  Mas antes teremos São Nicolau e… São Nicolau (Papai Noel).

Fonte: O Catequista
Por Paulo Ricardo em 31/01/2012

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